Arnaldo & Cidinha
Arnaldo chega
do trabalho. Ele tira os sapatos, joga a maleta, o paletó e a gravata em cima
da mesa de jantar. Ele se joga na sua poltrona favorita e pega o controle
remoto, afinal de contas seu time favorito vai jogar naquela noite. Sua mulher aparece na sala... Ela, ao
contrário dele, está bem vestida e perfumada como se fosse sair para algum
lugar. Ele olha para ela e pergunta:
- O que tem para o jantar? – Ele
está faminto e começa a imaginar se aquela seria uma das noites em que sua
mulher estaria inspirada na cozinha.
- Assim, bem eu estava pensando
que a gente podia... Jantar no Shopping! – Ela sugeriu felicíssima com a idéia
de não ter de cozinhar naquela noite.
- Shopping? Eu acabei de chegar
da rua! – Ele pergunta já imaginando o estrago no bolso dele que aquela ida ao Shopping
traria.
- Ah vamos? A gente aproveita e
pega um cineminha... – Ela sugere e ele treme. Pegar um cineminha significa ter
de se levantar de sua poltrona favorita, interromper o seu jornal favorito, ter
de se arrumar depois de passar o dia todo engravatado e ainda por cima perder o
jogo que vai passar depois da novela das oito.
- Por que a gente não vê um time
na Tv a cabo? É tão mais aconchegante assistir filme em casa...
- Pode ser um DVD da minha
coleção de comédias-românticas? – Ela pergunta toda entusiasmada e ele, sem ter
outra saída, acaba concordando.
Acabaram
comendo mesmo uma pizza que estava no congelador. E em seguida começaram a ver
o filme. No final do filme Cidinha começou a chorar sem parar.
- O que foi que houve?! – Ele
perguntou sem entender.
- Esse mocinho idiota do filme
passou a vida inteira decidindo se ia ficar com a mocinha ou não, quando
decidiu ficar com ela, ela morreu atropelada! Uma vida inteira desperdiçada
porque ele não sabia o que queria! E o pior de tudo é que você é igualzinho a
ele... Totalmente indeciso! Quando for me dar valor, vai ser tarde, eu vou ter
sido atropelada por um caminhão! – Ela disse e voltou a chorar.
- Era só o que me faltava! O
personagem do filme faz suas besteiras e eu que pago por isso! Eu nunca fui
indeciso! – Ele protestou.
- Ah não? E por que você passa
horas decidindo qual o sabor do sorvete que você quer, hein? O sorveteiro até
esquece que a gente está lá, isso sem falar que você me enrolou por sete anos
antes de casar! – Ela disse voltando a se aborrecer.
- Eu não te enrolei, demorei para
casar porque estava muito novo...
- Muito novo?! Arnaldo, quando eu
te conheci você tinha 35 anos!
- Vamos mudar de assunto? Vamos
deixar esse filme pra lá e assistir uma novelinha enquanto o jogo do timão não
começa. – Ele sugere e começa beijá-la afim de convencê-la.
- Está bem, vamos.
Os
dois então começam a assistir a novela das oito. O bonitão da novela aparece e
Arnaldo podia até jurar que Marilene suspirou discretamente. Aí foi a vez dele
ficar impaciente.
- Não gosto desse ator...
Trabalha mal... Só está na novela porque era modelo antes... Não tem
competência nenhuma.
- Ele é um ótimo ator, eu até
chorei na cena em que ele doou um rim para a mãe dele que estava doente... –
Ela confessou.
Arnaldo
não gostava das novelas que passavam na TV, mas detestava os galãs. Eles nunca
estavam despenteados, os dentes sempre brancos, sorriso digno de comercial de
pasta de dente, e como eles eram perfeitinhos, chega irritava! Nenhum deles
sequer assistia futebol ou jogava videogame, eles só viviam para a mulher
amada, e depois que a novela terminava começavam as comparações. Era mocinho
pra lá, mocinho pra cá e haja paciência.
A
novela terminou quando uma das mocinhas descobriu que o marido dela havia
mentido para ela a novela inteira! Cidinha então virou-se para Arnaldo e disse:
- Eu não acredito que ele mentiu
pra ela esse tempo todo! Eles faziam um casal tão perfeito! – Ela virou-se e perguntou: -
Arnaldo, eu quero a verdade: Você tem alguma coisa pra me dizer?
- Não, não tenho.
- Fala a verdade, Arnaldo. Pode
falar que eu agüento! – Ela avisou e ele começou a pensar em alguma coisa para
confessar, caso contrário ela não iria parar nem tão cedo.
- Tá bom, tá bom, eu falo...
Quando a gente estava namorando eu quebrei o gatinho de louça da sua avó
Eudócia e coloquei a culpa no cachorro.
- Foi você?! Bem que a vovó
Eudócia dizia ter certeza que você tinha quebrado o gato de louça dela! Ela
morreu jurando que o Bidú não tinha nada a ver com aquilo! Bem, mas já que é só
isso e a vovó Eudócia faleceu há oito anos, eu te perdôo. Vou ligar para a Jéssica, saber das novidades!
Ela
anunciou e saiu da sala. Arnaldo sorriu aliviado, finalmente ia assistir o seu
futebol. De repente Cidinha entra na sala e anuncia:
- Arnaldo, a Jéssica me contou
que o Luís Henrique deixou a Marinete! –
Ela disse transtornada.
- Já sei: Ele roubou o dinheiro
dela que nem o cara da novela! – Disse tentando advinhar.
- Não, ele fugiu com a
secretária. A Marinete é tão legal, a Jéssica me disse que ela perdeu tanto
peso com essa história...
- A Marinete sempre fez dieta,
pelo menos conseguiu emagrecer... Ela é bonita, nova, daqui a pouco ela
encontra outra pessoa! – Ele disse a primeira coisa que lhe veio à mente
enquanto tentava ouvir a escalação do time.
- Grosso! Que insensibilidade com
o problema dos outros! Quer saber vocês homens são todos farinha do mesmo saco!
Eu vou dormir e não quero conversa hoje à noite! – Ela se levantou furiosa.
Arnaldo
também ficou furioso. O marido da Cidinha aprontava e ele era quem pagava o
pato. Ele decidiu esquecer aquela história, afinal de contas o timão ia jogar.
Cidinha,
por sua vez, deitou-se para dormir. Tentou mas não conseguiu. Virou-se para um
lado, virou-se para o outro e o sono não chegava. Lembrou-se do que Arnaldo lhe
disse: “A Marinete é bonita, nova, daqui a pouco ela encontra outra pessoa”. E
se o Arnaldo fosse consolar a Marinete e se apaixonasse por ela?!
Arnaldo
estava concentrado, assistindo o jogo quando viu Cidinha sentar-se ao seu lado:
- Oi. Deu saudade... Vim ver o
jogo com você... Torcer pelo timão! – Ela disse meio sem graça. Ele a abraçou e
sorriu, era bom saber que ela estava ali. Logo em seguida ele se levantou e gritou:
- É pênalti! É pênalti!
Fim
Até a próxima ideia,
Déa Accioly
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